A vida é uma merda - e está tudo bem
Edição #311: Uma edição pessimista-realista, com a ajuda de Paul Auster
Um ano atrás, quando eu estava prestes a completar 40 anos, escrevi aqui sobre como eu não estava em uma crise de meia-idade. Naquele momento, eu estava amando ver a data se aproximar e poder celebrar a vida e a maturidade. Eu estava certa e errada ao mesmo tempo.
Naquele momento realmente não havia crise alguma. No entanto, passado o aniversário, comecei a pensar de uma forma diferente. A crise só veio depois.
Não sei se esta fase merece o nome de crise - está mais para um confronto com a realidade. Aprendi muito neste último ano, revi minha perspectiva sobre a vida e repensei minhas expectativas. De repente, parece que compreendi algo que foi bem colocado por um personagem secundário do livro 4 3 2 1, de Paul Auster (Companhia das Letras):
“A única constante neste mundo é a merda, meu rapaz. Estamos todos metidos nela até aos tornozelos todos os dias, mas às vezes, quando nos chega aos joelhos ou à cintura, temos de sair dela e seguir em frente.”
Terminei a leitura do livro há meses, mas esta frase não sai da minha cabeça. Talvez você ache que seja pessimismo puro, coisa de gente deprimida. Mas depois dos 40, comecei a entender que ela é a mais pura verdade. E mais: que aceitar esta realidade é a única forma de viver uma vida mais leve.
Quando a ficha caiu, fiz um exercício de olhar para trás e ver todos os tempos em que a merda estava no nível dos tornozelos. É todo dia, gente: a vida é uma sucessão de problemas maiores e menores. Você pega trânsito, o chefe é mala, o projeto não dá certo, um amigo falou algo atravessado, o noticiário é um horror. Tem ansiedade, cansaço, doença, morte. Falta paciência. Os filhos dão trabalho. Trabalho - aliás - dá trabalho (e não há ideal de propósito algum que sustente o bom humor ininterrupto numa rotina de verdade).
Entendi que enquanto eu lutava contra isso e tentava enxergar a vida como um mar de rosas, estava apenas tentando fazer a alegria trazida pelos bons momentos transbordar na hora de avaliar como foi o dia, o mês, o ano. Era impossível.
No último ano, parece que vivi diariamente o exercício de aceitar a filosofia de vida como uma constante de merda. O que percebi foi que passei a dar muito mais valor aos momentos bons. Eu não espero mais que eles se sucedam em um carpete vermelho infinito de felicidade e empolgação. Apenas curto enquanto eles estão acontecendo.
Aprendi a dar festa especialmente quando estou triste. A dar mais risada com minhas amigas. A dar valor a cada momento bonito que tenho com minhas filhas. A fugir mais com o Luiz para buscar alívio nos dias em que nada parece dar certo - que seja para tomar um drink no bar (maravilhoso, por sinal) que fica na esquina. Temos ido tantas vezes lá que não preciso mais fazer o pedido: os garçons nos vêem chegando e já pedem dois negronis de pera antes mesmo de sentarmos na nossa mesa que já virou cativa.
Reconhecer a constante de merda talvez seja a receita para evitar que o lamaçal suba muito dos joelhos. Quando ele chega na cintura, relembro todas as vezes em que já passei por situações como aquela e busco as minhas fontes de conforto. Eu já não espero mais ser feliz o tempo inteiro. Esquece, não vai rolar.
Converso com meus pais sobre isso e eles dão risada. Finalmente você aprendeu, eles parecem dizer. Minha crise da meia-idade não veio exatamente na data do aniversário de 40. Agora, no olho do furacão, consigo entender: ela veio depois que eu esperava, mas trouxe ganhos muito maiores do que imaginava.



Fui ao terreiro recentemente, era gira de marinheiro e um deles disse pra mim: a gente precisa saber qual onda dá pra pular, e qual a gente precisa só respirar fundo, mergulhar e deixar ela levar. Isso não sai da minha cabeça há tempos também e lembrei muito disso lendo o seu texto, Carol. Que gostoso abrir mão do controle e apreciar as felicidades e sortes que aparecem no meio do caos, né? <3
Amei essa edição, Carol! 💛
Me lembrei de algo que ouvi uma vez de um monge budista:
“A vida tem sofrimento, aceitem. No dia em que vocês aceitarem isso, vão viver muito melhor.” É isso.