Abra com cuidado: um livro para abalar seu casamento
Edição #298: Uma resenha de “De quatro”, de Miranda July, com ajuda do poeta Afonso Cruz
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Esta é a última edição aberta de 2024. Na semana que vem, trarei a minha lista de preferidos do ano para os assinantes do plano pago. Se você gosta desta news e quer conferir quais foram minhas leituras mais especiais do ano, considere migrar para o plano pago - esta é uma forma de apoiar a existência desta news.
Eu parecia uma nerd total. Cheguei na festa de aniversário de uma amiga na sexta-feira e só queria falar do livro que havia acabado de terminar: De quatro, o novo romance de Miranda July (ela acabou de aterrisar também no Substack!). Você não quer um drinque? Não, espera, você não está entendendo o que é o livro. Socorro.
A protagonista não tem nome - ela poderia ser qualquer uma de nós. E está completamente travada. O casamento não anda lá essas coisas, mas ela nem percebeu direito. Ela é uma mulher de meia idade, uma artista semi-famosa, mãe de uma criança de sete anos que só quer que algo aconteça. Quando recebe uma carta do vizinho contando que viu um carro parado na frente da casa dela e o motorista tirando fotos, ela se sente aliviada. A vida, para ela, é uma tortura auto-imposta:
“He doesn't see how each moment can be made terrible if you only try. There can be a problem every second so that life is a sort of low-grade torture. Then, when you are free, like when I was eating dessert with Jordi, it feels really, really good, like a drug high. So: grit, grit, grit, then: release. Joy. This works especially well for a life built around grueling self-discipline culminating in glittery debuts and premieres. Grit, grit, grit, then: ta-da!”
A única forma de sentir alívio e felicidade é neste mecanismo de ralar-ralar-ralar-e-depois-soltar. Como se a vida não pudesse ser boa por si só.
Tudo muda quando ela recebe um cheque inesperado de vinte mil dólares. Ela partilha do mesmo sentimento de uma amiga minha: dinheiro que veio do nada deve ir embora rápido. Então ela resolve ir dirigindo da Califórnia para Nova York e passar uma semana lá em um hotel de luxo. Para ficar sozinha, para ter um tempo livre, mas também para provar para o marido que ela dá conta.
Mas ela não dá conta. Meia hora depois de sair de casa sozinha, ela sai da estrada, faz um check in em um motel e toma mais algumas decisões questionáveis: redecorar o quarto do motel, se apaixonar por um homem casado, se esconder do mundo por algumas semanas. Como deixar tudo aquilo trancado no quarto de motel?
É o tipo de livro que dá um medinho de começar a ler. Vai que tudo aquilo é contagioso? Dá medo também de indicar para uma amiga: vai que alguém se separa depois de ler? E a responsabilidade?
No entanto, logo entendi que estes receios todos indicam que July conseguiu pegar em um ponto nevrálgico da experiência de mulheres de mais ou menos quarenta anos: e se tudo o que construí até aqui não era exatamente o que eu queria?
Ler De quatro traz questionamentos inevitáveis para qualquer mulher desta minha faixa etária. Não foi à toa que ele foi eleito o melhor do ano pelo New York Times. Sorte a minha de viver um casamento tão gostoso: atravessei este livro que é um terremoto e percebi que as fundações da minha vida são realmente sólidas. Muito mais: só me senti mais convicta das escolhas que me trouxeram até aqui. Tomaria todas elas de novo.
Ainda assim, o livro abala as estruturas. Miranda July faz todo leitor colocar sua vida e relacionamentos em cheque sem precisar correr riscos de verdade. Como diz o poeta Afonso Cruz em uma das mais lindas notas de rodapé do delicioso O vício dos livros:
“Abrir um livro é abrir pessoas e explorar o nosso próprio mundo através da experiência dos outros. O território inexplorado dentro de nós é acessível através dessa imersão em personagens que nunca fomos e jamais seríamos ou talvez venhamos a ser, e em vidas que nunca tivemos e jamais teríamos ou vidas que serão o nosso destino. As personagens dos livros que lemos são o meio de transporte para o que não somos, ou melhor, para o que somos sem ser. Creio que esta noção é fundamental: ser profundamente o que não somos.”
Miranda July nos permite ser a mulher adúltera com muito mais opções disponíveis do que os trilhos do trem de Anna Kariênina. Ela é a narradora de si e habita um mundo de múltiplas orientações sexuais, poliamor e desejos sem trava.
Parece um livro sobre sexo - mas é também (e talvez principalmente?) um livro sobre menopausa. E olha quanta evolução. Chegamos em um momento da literatura onde podemos ter obras primas sobre a fase da vida da mulher em que ela deixa de ter valor ao patriarcado, pois já não pode mais se reproduzir. Virginia Woolf ficaria orgulhosa. Um clássico instantâneo que fala de menstrução e da falta dela.
O livro entrou fácil, fácil para a minha lista de preferidos do ano (que sai na semana que vem!). Ele é estranho, hilário, viciante, brutalmente real, e me deu o presente de parar para repensar na minha vida, criatividade, relacionamentos, desejos e liberdade. O que eu mais queria era que todas as minhas amigas devorassem De quatro o quanto antes para discutir o livro até cansar.



Comecei a ler, já li uns bons capítulos, mas confesso que esperava mais da escrita. Não tá me pretendendo de jeito nenhum...
Eu devorei, me envolvi, me diverti, chorei e confesso: fiquei com vontade de imitar uns trechinhos aqui e ali ahhaahahha