Humanidade questionada
Edição #333: Um show do Coldplay e um campo acadêmico minado
O cenário foi um show do Coldplay em Wembley. Dessa vez, Chris Martin, o vocalista da banda, não viralizou por expor inadvertidamente um casal pego em flagrante em pleno affair, mas sim por anunciar que iria tratar duas jovens israelenses “como seres humanos”. As duas haviam sido convidadas a subir ao palco e Martin perguntou de onde elas eram. Ao contarem que eram de Israel, a plateia começou a vaiá-las. Foi então que o vocalista anunciou que estava grato em recebê-las “como humanas” e iria tratá-las “como humanas”.
Agora eu me pergunto: existe alguma outra forma de tratar um ser humano? Um israelense? Um judeu?
Como se, por serem israelenses, as duas fossem automaticamente culpadas pela guerra em Gaza. Como se, ao terem a sua humanidade reafirmada pelo cantor, elas fossem se sentir mais tranquilas. Como se ser israelense (ou judeu) fosse inferior à categoria humana.
Eu continuo a me perguntar: por que esse tratamento diferente com Israel? Ninguém precisa lembrar que os franceses, americanos, russos ou ingleses também são seres humanos. Será que ele percebeu que ao fazer o disclaimer, Martin estava na realidade questionando a humanidade delas?
Na sequência, o cantor (para agradar a plateia?) resolveu agradecer a presença de palestinos na plateia e fazer o lembrete de que “somos todos igualmente humanos”. O lembrete de Martin, embora bem-intencionado, soa como se os israelenses e judeus precisassem ser lembrados de sua própria empatia — como se não sentissem dor diante das mortes e do sofrimento em Gaza. Como se nossos corações não se dilacerassem também diante da morte, da fome, do horror.



