Uma má judia?
Edição #332: Sobre escrever uma tese sobre a dor judaica no meio da guerra
Me chame
de judeu mau
porque não vou renegar meu
povo para te deixar
confortávelSarah Sarah Tuttle-Singer, traduzido por Uri Lam
Outro dia, enquanto almoçava com uma amiga, ela me comentou que a situação em Gaza se tornara tão insustentável que uma amiga havia confidenciado a ela: estava com vergonha de ser judia.
Aquela frase me caiu mal. Será que havia motivos para eu ter vergonha da minha origem, do meu povo?
O Instagram devia estar ouvindo a nossa conversa, pois assim que cheguei em casa e abri o app, o primeiro post que vi foi uma tradução do poema Please call me a bad Jew pelo meu amigo e rabino Uri Lam. Parecia encomendado especialmente para a ocasião.
O que está acontecendo em Gaza é terrível. Os reféns precisam voltar para casa e esta guerra precisa acabar. Vibrei no domingo ao ver a enorme greve geral realizada em Israel (domingo é o primeiro dia útil da semana por lá), com um protesto no qual um milhão de israelenses pediu o fim da guerra. Para você ter uma ideia do tamanho e da proporção, isso equivaleria a mais de 20 milhões de pessoas na Avenida Paulista. Israel tem apenas nove milhões de habitantes - e 10% deles passaram pelos protestos ao longo do dia. Um número imenso de pessoas que deseja e luta pelo fim das hostilidades.
Então por que a imprensa brasileira mal cobriu o evento? Por que a tal amiga tem vergonha de ser judia? Por acaso ela é membro ou representante do governo israelense? Nem isralense ela é - e definitivamente não elegeu Benjamin Netanyahu. A situação é tão biruta que é como se o mundo passasse a tratar americanos com preconceito só porque uma parte dos EUA elegeu Donald Trump como presidente. Mas é pior, pois acontece uma confusão entre os conceitos de judeu/judia e israelense.
A tristeza é que a única explicação para esses questionamentos é o antissemitismo persistente de nossa sociedade. Sou judia e isso parece me tornar automaticamente culpada, aos olhos de tantos, pela guerra em Gaza. Para muitos, fui reduzida a uma defensora da colonização e do apartheid. A cada vez que escrevo nessa newsletter sobre judaísmo e o 7 de Outubro, perco assinantes. E ainda assim, aqui estou, insistindo no tema.



