Vou te falar #60
Sobre abandonar livros e os direitos do leitor
Aconteceu comigo recentemente. Levei três livros para as férias, num ataque de ambição um tanto descolado da realidade. Comecei com Bunny, de Mona Awad (falei dele aqui). Este livro chamou a minha atenção depois de uma resenha da Isadora Sinay e furou a minha fila de próximas leituras com classe e velocidade. Tinha todos os elementos que eu amava: um cortejo à A história secreta (um dos meus livros favoritos), o ambiente das universidades americanas, um programa de escrita criativa, uma turma complexa de amizades femininas. Não deu outra – devorei Bunny em três dias.
Na sequência, peguei o livro que realmente estava aguardando: The Netanyahus, de Joshua Cohen. Foi vencedor do Pulitzer de Ficção deste ano e eu estava contando os dias para poder ler a obra. Ela mistura realidade com ficção, fala sobre judaísmo e preconceito, também em um ambiente universitário (notou o padrão?). Todos os elementos certos estavam ali, mas depois de dois dias, percebi que não conseguia avançar.
Eu pegava o livro e lembrava que não tinha feito o Termo do dia – o que me levava diretamente ao Dueto, Quarteto e Wordle. Pegava de novo, mas resolvia dar uma olhada na babá eletrônica para ver se estava tudo bem com a minha bebê do outro lado do Atlântico. Tentava ler mais um pouco, mas o feed do Instagram me chamava, qualquer email parecia mais interessante, jogava tempo fora na home do UOL. Retomava a leitura decidida, mas o Luiz resolvia me contar uma história e eu esquecia o livro definitivamente ao meu lado.
Quando vi, estava me forçando a ler algo que claramente não estava funcionando. As férias escoavam cada vez mais rapido e eu tinha uma decisão a tomar: insistir na leitura meio a contragosto ou abandoná-la e optar pelo próximo da lista. Foi uma decisão fácil: guardei o Netanyahus na mala e peguei o seguinte.
Não pensei mais no assunto até uma conversa com uma amiga. A Sarah é dessas pessoas que a internet me trouxe de presente e que eu guardo com carinho. Temos um gosto literário semelhante e é delicioso amar alguns livros juntas. Ela foi uma fonte de apoio quando eu estava lendo Uma vida pequena e me indicou uma série de obras maravilhosas.
Numa troca de DMs neste fim de semana, ela me contou que estava lendo algo e odiando. Entramos logo na discussão sobre largar ou não um livro no meio. Contei a ela como foi fácil abandonar o Netanyahus, mas a Sarah não é o tipo de pessoa que consegue esse desprendimento. Ela insiste.
Em nenhum momento me arrependi da decisão - e meu prêmio foi poder devorar A boa sorte, de Rosa Montero, na volta para casa. Acredito que a vida é muito curta e a minha lista de próximas leituras é muito longa para gastar tempo com um livro que não é para mim. Pode até ser seja que em algum outro momento, mas me recuso a forçar uma leitura que não está rolando em meio às férias. Nessas horas, eu me lembro dos Direitos do Leitor, do escritor francês Daniel Pennac:
O direito de não ler.
O direito de pular páginas.
O direito de não terminar um livro.
O direito de reler.
O direito de ler qualquer coisa.
O direito ao bovarismo (doença textualmente transmissível)
O direito de ler em qualquer lugar.
O direito de ler uma frase aqui e outra ali.
O direito de ler em voz alta.
O direito de calar.
Eu estava bem resolvida e tão satisfeita comigo que decidi escrever esta crônica para defender o direito de abandonar um livro. A conclusão estava perfeita: se não estiver gostando, largue sem dó.
No entanto, tive que jogá-la fora quando a Sarah me escreveu no domingo para contar que tinha persistido no tal livro e estava amando. Não conseguia mais largar.
Resultado?
Já coloquei Cleópatra e Frankenstein na minha lista. Já os Netanyahus, veja bem: talvez eu tente de novo mais pra frente.



a vida é mluita curta pra fazer algo que não se gosta, já temos tantas osbrigações, livro tem que trazer alegria
Quando o eu de agora não está dando conta de ler um livro, eu geralmente tento entender o motivo. Às vezes é porque meu interesse pelo tema diminuiu. Às vezes é porque a leitura exige mais de mim e estou sem energia. Às vezes é porque o texto não está entregando o que eu esperava. Em qualquer desses casos, deixo o livro de lado e vou fazer outras coisas, ou mesmo ler outras coisas. Talvez meu eu do futuro, em condições diferentes de temperatura e pressão, venha a ler o que larguei. Talvez não. Acolho isso porque, se não quero ler, também não quero carregar o fantasma do livro não lido nas minhas costas. Minha sacola de arrependimentos já tá quase rasgando e livro não tem sentimento ferido haha 😅